Pular para o conteúdo principal

‘A mesa é um território de disputa. Precisamos tirar o colonizador do estômago’ - Entrevista de Sul 21 com Sandra Guimarães

 


‘A mesa é um território de disputa. Precisamos tirar o colonizador do estômago’

Por
Marco Weissheimer
marcow@sul21.com.br

Filha de assentados do MST no Rio Grande do Norte, cozinheira e nordestina, Sandra Guimarães é uma das principais ativistas veganas e antiespecistas brasileiras. (Foto: Luiza Castro/Sul21)
Filha de assentados do MST no Rio Grande do Norte, cozinheira e nordestina, Sandra Guimarães é uma das principais ativistas veganas e antiespecistas brasileiras. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

O que está no prato nosso de cada dia mostra o que está acontecendo no campo perto de onde vivemos. Se, no nosso prato só tem arroz e carne fundamentalmente, pode ter certeza que o campo perto de sua casa é pasto. A mesa, assim, longe de ser um espaço inocente, também é um território de disputa política. Quando a gente escolhe colocar carne no prato, estamos ajudando a fortalecer o modelo do agronegócio, o desmatamento. Quando a carne é protagonista do prato, o agro é protagonista do campo. Sandra Guimarães, ativista vegana, nordestina, cozinheira, filha de assentados do MST e editora do blog Papa Capim resume assim o campo de disputa social, política e simbólica que se estabelece toda vez que fazemos uma refeição. Isso considerando a parcela da população que tem a oportunidade de fazer refeições regulares, uma vez que o Brasil, no governo Bolsonaro, voltou ao mapa da fome. E o retorno da fome, para a filha de sem terra que se tornou uma das principais ativistas veganas e antiespecistas do país, também está relacionado ao modelo baseado no agronegócio, onde a soja vem avançando sobre as plantações de feijão. “Onde a soja avança, o feijão recua”, resume.

Sandra Guimarães esteve em Porto Alegre na semana passada para participar da etapa local da primeira Jornada do Veganismo Popular contra o Fim do Mundo, um ciclo de atividades que vem sendo promovido em todas as regiões do país pela União Vegana de Ativismo (UVA), uma rede que existe há quatro anos e articula quase 40 coletivos no Brasil. Diante do problema do retorno da fome, esses coletivos defendem que é preciso resgatar a comida da terra, de base vegetal, alimentos tradicionais como feijão, milho e aipim, que vem perdendo espaço no campo brasileiro com a expansão do agronegócio. Entre as diversas atividades das quais participou no Rio Grande do Sul, Sandra Guimarães visitou um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Eldorado do Sul, que é modelo em produção agroecológica e biodinâmica e é sede também da padaria Pão da Terra, construída por mulheres assentadas que prometeram, quando estavam acampadas em uma situação onde a fome era uma companhia cotidiana, que, quando conquistassem a terra, fariam o melhor pão do mundo. Sandra ouviu essa história da boca de uma de suas protagonistas, Maria Inês Riva, que contou emocionada como a promessa se tornou realidade.

Ela também fala sobre suas primeiras impressões sobre a cultura alimentar do Rio Grande do Sul (foi a primeira vez que ela visitou o Estado). “De todas as culinárias que eu vi até aqui, achei a do Rio Grande do Sul a mais colonizada. Muito leite, muita carne. Para mim, a cultura alimentar do Rio Grande do Sul é o ápice da colonização alimentar no Brasil. É a que mais se separou da comida original da terra e mais se aproximou dos colonos”.

 

Sandra Guimarães visitou assentamento do MST em Eldorado do Sul (Foto: Luiza Castro/Sul21)

O trabalho desenvolvido pelo MST em seus assentamentos, produzindo arroz orgânico, promovendo a agroecologia e práticas como a agricultura biodinâmica, valorizando e resgatando alimentos de base vegetal que fazem parte da culinária tradicional brasileira é, para Sandra Guimarães, uma das estratégias centrais para enfrentar, ao mesmo tempo, o problema da fome no Brasil, e a ideologia especista que coloca a espécie humana como uma entidade superior no planeta, autorizada a explorar, controlar e matar seres de outras espécies. Em entrevista ao Sul21, concedida no assentamento do MST em Eldorado do Sul, ela fala sobre essas relações e destaca a conexão que há hoje entre o veganismo popular, a reforma agrária e a agroecologia. “A gente acredita que para sair do mapa da fome e conseguir alimentar a população, vamos precisar da reforma agrária e da agroecologia, mas também rever a nossa cultura alimentar. Na verdade, não é nem rever. Descolonizar é a palavra correta, voltar para a base da nossa cultura alimentar, que é vegetal. Voltar para a macaxeira ou aipim como vocês chamam aqui, para o milho, para o feijão. Sem a revalorização da nossa comida da terra, que é vegetal, não conseguiremos sair desse cenário atual”, defende. 

Sul21: Você está fazendo um roteiro por várias cidades do País, promovendo um debate sobre o veganismo popular, o antiespecismo e os nossos atuais padrões alimentares. Na tua avaliação, o que essa agenda representa hoje na sociedade, considerando o momento que vivemos no Brasil e no mundo?

Sandra Guimarães: Nós estamos organizando o que estamos chamando de primeira Jornada do Veganismo Popular contra o Fim do Mundo, pelo combate à fome e pela libertação animal. Eu faço parte da União Vegana de Ativismo (UVA), que é uma rede que existe há quatro anos e conecta quase 40 coletivos no Brasil inteiro. Estamos vivendo um momento histórico agora, pois a UVA nasceu entre o primeiro e segundo turno das eleições de 2018, quando era urgente se organizar e estávamos vendo também pessoas veganas apoiando Bolsonaro. Vimos que era o momento de nos organizarmos politicamente. Hoje, quatro anos depois, organismo um mês inteiro de atividades no Brasil inteiro, juntamente com a Xepa Ativismo e os meninos do Vegano Periférico. Fizemos uma live de abertura e os coletivos ligados à UVA realizaram atividades diversas em seus territórios. Eu tentei participar o máximo possível dessas atividades.

Nós achamos importante realizar essas conversas agora, pois estamos vivendo um cenário onde o Brasil voltou ao mapa da fome e o agro domina. Foi muito interessante ver, depois do primeiro turno da eleição, ver que onde Bolsonaro teve o maior número de votos coincide perfeitamente com a região do agronegócio, do arco do desmatamento e também com os estados onde há o maior número de abatedouros e de rebanhos, especialmente bovinos e suínos. Sentimos que era o momento de mobilizar o pessoal. A gente acredita que para sair do mapa da fome e conseguir alimentar a população, vamos precisar da reforma agrária e da agroecologia, mas também rever a nossa cultura alimentar. Na verdade, não é nem rever. Descolonizar é a palavra correta, voltar para a base da nossa cultura alimentar, que é vegetal. Voltar para a macaxeira ou aipim como vocês chamam aqui, para o milho, para o feijão. Sem a revalorização da nossa comida da terra, que é vegetal, não conseguiremos sair desse cenário atual. 

Estive em Belém e em Porto Alegre, passando pelo Nordeste e pelo Sudeste também, sempre encontrando os coletivos locais. A gente se articula muito com o MST. Em quase todas as cidades onde foram realizados esses encontros, nós fomos ao Armazém do Campo e às sedes do MST. A mensagem é muito clara: o veganismo popular se articula com o MST porque sem reforma agrária não haverá condições de plantar comida para todo mundo. E não conseguiremos superar a exploração animal enquanto não houver plantas suficientes. Essa é a ideia por trás dessa grande viagem onde estou acompanhando os eventos em cada território.

 

Assentamento de Eldorado do Sul é um centro de produção agroecológica e biodinâmica. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Sul21: Para algumas pessoas, essa agenda do veganismo seria uma espécie de “luxo” considerando o atual contexto que estamos vivendo, especialmente, no caso brasileiro, com o agravamento do problema da fome. A gente viu aqui hoje no assentamento em Eldorado do Sul, tanto na horta quanto na padaria, o quanto essa associação entre a ideia de comida de verdade e alimentação de origem vegetal parece bem natural. Só que isso ainda parece meio distante da percepção popular, apesar de um prato com arroz e feijão fazer parte do nosso cardápio mais tradicional. Como você acredita que seja possível dar mais visibilidade a essa conexão?

Sandra Guimarães: Acho que tem três pontos aí. O primeiro é desmistificar essa ideia de que o veganismo é algo de elite e que uma alimentação vegana é cara. Eu já parto do princípio de que não existe comida vegana, mas sim comida vegetal. Veganas são as pessoas. Então, primeiro é preciso quebrar esse preconceito de que comida vegetal é cara. Comida vegetal é comida do proletariado. É arroz, macaxeira, feijão, milho, tapioca, cuscuz. Por outro, a gente também precisa fazer uma mudança de consciência por meio da educação para promover uma valorização do alimento vegetal. Hoje, feijão e arroz estão associados à privação, à falta e à escassez, quando, na verdade, a alimentação de origem vegetal está ligada à abundância. Hoje a gente visitou uma horta agroecológica e vimos uma abundância muito grande, com mais de 90 espécies de hortaliças.

Em terceiro lugar, as pessoas precisam ter consciência de o quanto a nossa alimentação foi colonizada. As pessoas não sabem, esquecem ou não querem saber que vacas, porcos e ovelhas foram trazidas para cá pelos invasores. A nossa comida nativa – o feijão, o milho, a mandioca, vários tipos de amendoim – tudo isso já existia, mas passa a ser considerado comida de nativo, que é inferior, e a gente acabou assimilando esse querer a comida do colonizador. É incrível como isso realmente entrou na mesa, entrou em tudo. Hoje em dia, tudo tem leite, tudo tem leite condensado, tem manteiga. É muito difícil a gente encontrar comida que seja realmente vegetal.

 

“Comida vegetal é comida do proletariado. É arroz, macaxeira, feijão, milho, tapioca, cuscuz”. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Então, acho que é preciso trabalhar nestes três níveis: falar para as pessoas que comida vegana é comida da terra e não é cara, associar abundância à comida da terra e, em um terceiro nível, descolonizar o nosso paladar e a nossa mesa. A mesa é um território de disputa. O estômago é um território colonizado. Precisamos tirar o colonizador do estômago. Quando a gente escolhe comer como o colonizador, a gente está apoiando esse projeto. Quando a gente escolhe colocar carne no prato, estamos dando um pouquinho mais de força para o agro. Quando a carne é protagonista do prato, o agro é protagonista do campo. Já quando o protagonista do seu prato é o alimento agroecológico vegetal, você está apoiando a agricultura familiar, a agricultura de assentados e assentadas. 

É um trabalho muito grande que estamos fazendo e há muitos coletivos envolvidos nele. Estamos nos organizando agora e nos politizando. A gente defende a vertente do veganismo popular, que é uma vertente politizada que entende que, sem reforma agrária, não haverá fim da exploração animal, que sem sair do capitalismo não vamos conseguir acabar com o especismo e que mais empresas de ultraprocessados vegetais não é a solução.

Estamos começando a colher os frutos desse trabalho. A gente já tem uma abertura com o MST e com o pessoal da Teia dos Povos também. Eles têm nos convidado para muitas conversas e atividades conjuntas. Conseguimos diálogo até com o PT, que tem uma setorial de Direitos Animais e nos convidou para conversar sobre esse tema. Então eu vejo que as coisas estão mudando. Após muitos anos de luta, a gente sente que tem essa abertura na esquerda. A gente conversou há tantos anos, né? Quando você me entrevistou pela primeira vez eu falei que, para mim, o veganismo fazia parte do projeto da esquerda. Naquela época, ninguém escutava. Todo mundo ria, dizia que o veganismo era uma modinha de gente rica que mora em cidades. Acho que isso mudou muito. Há um interesse maior, ainda que a pauta antiespecista não seja considerada uma pauta em todas as esquerdas. Para mim, um projeto de esquerda é incompleto sem a luta antiespecista.

Sul21: O que é exatamente o antiespecismo? Esse ainda é um conceito desconhecido para muita gente. Em que medida o antiespecismo se confunde com o veganismo?

Sandra Guimarães: O especismo é uma ideologia que justifica a opressão e dominação das outras espécies, que acredita que a espécie humana é superior e tem o direito de controlar o corpo, a vida e a morte das outras espécies. Há algumas nuances dentro do especismo, uma hierarquia. A gente adora cachorro, não come cachorro, mas vai comer a vaca. Acha o gato lindo e maravilhoso, nosso filho, e vai comer a galinha. Nós somos antiespecistas, queremos construir outra relação com os seres vivos. Nós fazemos parte da natureza, mas somos só uma espécie, como qualquer outra. O veganismo é a prática do antiespecismo. Como é que você pratica o antiespecismo? Boicotando os produtos vindos da exploração animal. Eu defino hoje o veganismo como uma prática de solidariedade política com as outras espécies. 

Então, não se trata de uma dieta, um regime alimentar ou um modo de vida. É uma prática de solidariedade. Se a gente quer ser coerente com a nossa luta, que é superar o especismo, criando uma sociedade que respeite todos os seres, precisamos praticar isso. Não posso me dizer antirracista e ter uma prática racista no meu cotidiano. Não posso me dizer feminista e ter uma prática machista no meu cotidiano. Então, nós, veganos, aliamos a prática à teoria.

 

Maria Inês Riva, da Padaria Pão da Terra. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Sul21: Na outra entrevista que fizemos, em 2018, você destacou o tema da conexão entre todas as formas de opressão. A tua trajetória recente tem duas experiências internacionais que dialogam diretamente com essa questão: uma na Palestina, nos territórios ocupados por Israel, e outra em Paris, onde mora agora em uma região repleta de refugiados vindos de diferentes países. Você disse que a figura dos refugiados climáticos já é uma coisa muito real. Após esses anos de pandemia, parece que essa conexão entre as formas de opressão ficou mais evidente. Como avalia a evolução (ou involução) dessa conexão nos últimos anos?

Sandra Guimarães: Sim, essas conexões ficaram mais claras. Nós, como antiespecistas, viemos denunciando isso desde sempre. O especismo é uma grande estrutura com várias camadas de dominação. A partir do momento em que a espécie humana traçou uma linha entre humanos e não humanos e estabeleceu que quem estava depois dessa linha não tinha direito de existir, criou-se um modelo que foi repetido dentro dos grupos humanos. A partir da fixação dessa linha entre humanos e animais, pode-se, depois, animalizar ou desumanizar certos grupos humanos. 

Historicamente, aqui no Brasil, nós temos o grupo das pessoas negras que foram desumanizadas. Se aceitamos a existência dessa categoria “animal” e que ela seja explorada e morta, a gente pode usar esse mesmo pensamento para pegar alguns seres humanos, colocar do lado de lá dessa linha e dizer que a opressão deles também é justificável. Nós desumanizamos ou animalizamos todos os grupos que a gente quer controlar. Por isso defendemos que um projeto de esquerda, ou qualquer projeto que seja anti-dominação e anti-opressão não estará completo se não combater o especismo.

Na Palestina, eu vi como o exército israelense animalizava o povo palestino. Eu li recentemente que, quando lançaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, o então presidente dos Estados Unidos na época disse que eles (japoneses) eram animais e deveriam ser tratados como tais. Então, seja japonês, vietnamita, palestino ou o refugiado que está vindo do Paquistão, esses grupos serão sempre humanos do que os humanos. A gente sabe quem é humano: o branco, ocidental, heterossexual, geralmente homem. Essa é a base do que é considerado humano. Tudo que sai fora desse grupo é um pouco menos humano e quanto menos humano você for mais oprimido você vai ser e mais essa opressão estará invisível. Ah, dirão, são paquistaneses, são muçulmanos, são árabes…

 

“A gente sabe quem é humano: o branco, ocidental, heterossexual, geralmente homem”. Foto: Luiza Castro/Sul21

Na França, existe hoje um racismo gigantesco. Vocês não imaginam o que é aqui. Tanto contra os povos negros que vêm da África, como contra os árabes. É gigante. A pessoa negra tem quatro vezes mais chance de ser parada pela polícia na rua. A pessoa árabe tem seis vezes mais chance de ser parada. O povo árabe é ainda mais oprimido por conta do mito do terrorista. Mas a ideologia de base é sempre a mesma: a gente desumaniza certos grupos humanos, que causam problemas, e uma vez que se tirou a humanidade ou se colocou um pouco mais de animalidade neles todo tipo de opressão é permitido. E ninguém vai se doer com isso. Veja o que aconteceu com os refugiados ucranianos que chegaram da guerra. Eles foram acolhidos. Não estou falando que não era para acolher. Todo refugiado fugindo da guerra tem que ser acolhido. Mas como eram europeus, brancos, o tratamento foi totalmente diferente, porque esse grupo é “mais humano” e corresponde ao que se considera como um ser detentor de todos os direitos. Já os refugiados do Sudão, que são negros e muçulmanos, esses continuam nas ruas sendo perseguidos pela polícia.

Sul21: Esse tema saiu um pouco do noticiário nos últimos meses, mas continua o movimento de chegada de refugiados vindos da África e Oriente Médio, com pessoas tentando atravessar o Mediterrâneo e morrendo afogadas no mar?

Sandra Guimarães: O tempo inteiro. Toda semana a gente recebe notícias sobre isso. Dizem que o Mar Mediterrâneo é, hoje, o maior cemitério que a gente tem. As pessoas tentam atravessar o mar fugindo da seca, da guerra e de condições econômicas onde é impossível sobreviver. Inclusive, a França, que é o terceiro maior exportador de armas do mundo, arma esses países que depois vão perseguir parte da população gerando novas ondas de refugiados que tentam ir para a França ou para outros países da Europa onde serão perseguidos, se não morrerem tentando atravessar o Mediterrâneo. São pessoas que saem do norte da África, de países como Líbia, Argélia, Tunísia, Marrocos, e tentam ingressar no sul da Europa. Quando conseguem fazer a travessia muitas vezes são colocados em campos de detenção. São vidas que importam menos porque são vidas consideradas menos humanas. Imagine se isso acontecesse com franceses? Estaria em todos os jornais do mundo.

Sul21: Essa é a primeira vez que você vem a Porto Alegre. Considerando esses dois dias que passou aqui e o contato que teve com a comida daqui, qual sua primeira impressão sobre a cultura alimentar que viu aqui, comparada a de outras regiões, especialmente Norte e Nordeste, que você conhece bem?

Sandra Guimarães: É a primeira vez que venho a Porto Alegre. Já tinha ido a Florianópolis e Curitiba, mas aqui no Rio Grande do Sul é a primeira vez. Como estou vindo do Nordeste e do Norte, para mim está bem visível a diferença com a comida daqui. É uma cultura alimentar muito diferente. Eu estava comentando hoje mesmo com os camaradas do coletivo que me chamou a atenção como as pessoas comem pouco feijão aqui, comparado ao Nordeste. A gente estava conversando com a Maria Inês (assentada em Eldorado do Sul) aqui agora e ela contou que a primeira coisa que eles decidiram plantar foi feijão e milho, para matar a fome do povo. Porque é isso que mata a fome. A natureza é tão perfeita que feijão e milho junto é uma proteína completa. 

Eu fiquei impressionada com a quantidade de feijão que não se come aqui. Isso tem a ver, claro, com a história dessa região que teve um povoamento diferente. A cultura alimentar daqui foi construída com outros elementos. No Nordeste e no Norte come-se feijão todo dia. A presença da macaxeira (do aipim) também é muito maior, o que eu já imaginava. Mas eu achei que ia encontrar mais milho aqui, um alimento que faz parte da cultura tradicional dos povos guarani. De todas as culinárias que eu vi até aqui, achei a do Rio Grande do Sul a mais colonizada. Muito leite, muita carne. Para mim, a cultura alimentar do Rio Grande do Sul é o ápice da colonização alimentar no Brasil. É a que mais se separou da comida original da terra e mais se aproximou dos colonos. Achei bem diferente mesmo, mas acho que dá para recuperar. O milho ainda está aqui e o mate também. Uma das poucas coisas que ficou dos povos originários, aliás, foi o mate.

 

“A cultura alimentar do Rio Grande do Sul é o ápice da colonização alimentar no Brasil”.
(Foto: Luiza Castro/Sul21)

Sem uma revalorização do feijão vai ser difícil a gente combater a fome e parar a exploração animal. Uma pessoa que não come feijão, vai comer carne e arroz todo dia. Se ela não comer a carne, vai comer arroz e batata? Não dá, é um prato incompleto. O feijão é a base e sem ele vai ficar difícil fazer uma transição alimentar. O atual modelo alimentar dominante é egoísta. Quando a sua dieta é baseada em carne, queijo e leite, a produção deles usa tanta terra e tanta água que vai faltar para outras pessoas. Essa obsessão por proteína que existe hoje no Brasil e no mundo se expressa numa dieta egoísta. Se todo mundo quiser se alimentar desse jeito, não tem condições, vai faltar comida pra muita gente. Se a maneira como eu como não pode ser reproduzida por todo mundo, isso está errado. Não pode ser assim. Voltando à sua pergunta, achei a culinária daqui a mais visivelmente colonizada e a que mais perdeu o contato com a comida de base vegetal

A última pesquisa do IBGE sobre os orçamentos familiares mostra que o lugar no Brasil onde ainda se come mais feijão é no Nordeste e no Norte. O Sul é um dos lugares onde menos se come feijão. Isso reflete o que está acontecendo no campo: onde a soja avança, o feijão recua. O que está no seu prato mostra o que está acontecendo no campo perto de você. Se só tem arroz e carne, pode ter certeza que o campo perto de sua casa é pasto. É muito triste ver isso, o feijão perdendo espaço para a soja. Para mudar isso, precisamos mudar nossos hábitos também. Não tem como demandar mais churrasco e esperar que as pessoas plantem feijão.


Créditos Sul 21

Comentários

Mais lidas.

LFS Assuntos Rurais - Brasil pode mais que dobrar exportação de carne bovina com acordo Mercosul-UE, diz Agrifatto - créditos CNN

  Brasil pode mais que dobrar exportação de carne bovina com acordo Mercosul-UE, diz Agrifatto Segundo Pimentel, o país já atende 86% da demanda europeia e deve manter essa posição de liderança no Mercosul Leandro Silveira (Broadcast), do Estadão Conteúdo 07/12/2024 às 18:05 | Atualizado 07/12/2024 às 18:05   Segundo Pimentel, o país já atende 86% da demanda europeia e deve manter essa posição de liderança no Mercosul   • . REUTERS/Amanda Perobelli Ouvir notícia 0:00 1.0x O Brasil pode mais do que dobrar a exportação de carne bovina à União Europeia a partir da formalização do acordo de livre comércio entre o bloco econômico europeu e o Mercosul. A estimativa, ainda preliminar, é da consultoria Agrifatto.  “Hoje exportamos 5% do nosso volume para a Europa, e esse número pode chegar a 12% ou 13% com o acordo”, afirmou a CEO da Agrifatto, Lygia Pimentel. Pelo acordo, o Mercosul poderá exportar 99 mil toneladas de carne bovina peso carcaça para a União Europeia, sendo 5...

Aqui estão as principais notícias e temas em alta no agro no Brasil — incluindo dados econômicos, exportações, mercado e tendências

Aqui estão   as principais notícias e temas em alta no agro no Brasil   — incluindo dados econômicos, exportações, mercado e tendências. *Receba as principais notícias sobre o Agro através do nosso Grupo LFS Assuntos Rurais no Whatsapp:  https://chat.whatsapp.com/K4qXU8O6l2eAf9HmXvnXUI  -----------------------    Aqui estão as principais notícias e temas em alta no agro no Brasil   — incluindo dados econômicos, exportações, mercado e tendências: Principais notícias do Agro no Brasil — em alta📈 Serviços e Informações do Brasil Agro brasileiro exporta US$ 82 bilhões no primeiro semestre de 2025 e mantém protagonismo na pauta comercial do país — Ministério da Agricultura e Pecuária Farm Progress Farm Futures afternoon grain market commentary ontem Eco-Business At COP30, Brazil’s farmers defend record on forests há 30 dias Revista Oeste Jornal da Oeste, Primeira Edição: assista ao noticiário de 26/12/2025 hoje 🌱 1. Agro Brasileiro com Destaque nas Export...

Aluguel de frota pesada: uma saída promissora e estratégica para empresas inovadoras - créditos CNN

  Aluguel de frota pesada: uma saída promissora e estratégica para empresas inovadoras Em setores vitais como agronegócio, construção civil, mineradoras e transporte, o investimento estratégico em aluguel de frotas pesadas não apenas otimiza a eficiência operacional, mas também impulsiona o crescimento sustentável. Com uma frota customizável, adaptada às demandas sazonais e específicas de cada setor, as empresas podem reduzir custos significativamente, direcionando recursos para áreas críticas. Frotas alugadas: uma saída promissora e estratégica para empresas inovadoras Brands 04/04/2024 às 09:00 | Atualizado 05/04/2024 às 14:18 Compartilhe: ouvir notícia 0:00 1.0x O cenário empresarial brasileiro está passando por transformações significativas, e em meio a esse panorama, surgem oportunidades promissoras em segmentos até então pouco explorados. Uma tendência que ganha força é a terceirização de frotas, um conceito relativamente novo no Brasil, especialmente quando se trata de veícu...

LFS Assuntos Rurais - Milho deve sustentar oferta de etanol, e produção de açúcar deve aumentar

    LFS Assuntos Rurais - Milho deve sustentar oferta de etanol, e produção de açúcar deve aumentar. Avaliação é da consultoria Datagro, que prevê a moagem de 612 milhões de toneladas de cana na safra 2025/26. Créditos Globo Rural, leia mais: https://globorural.globo.com/agricultura/noticia/2025/03/producao-de-acucar-deve-crescer-e-o-milho-sustentar-a-oferta-de-etanol.ghtml -------------- Receba as principais notícias sobre o Agro através dos nossos grupos! • Grupo LFS Assuntos Rurais no whatsapp: https://chat.whatsapp.com/IQ0hcYeyvlXCxVohaQhf04 • Grupo no Facebook: https://www.facebook.com/groups/530690934374947 -----------------

CAFÉ - Efeito de arrasto da CIIE ajuda café brasileiro a explorar ainda mais o mercado chinês - Créditos Xinhua

  Efeito de arrasto da CIIE ajuda café brasileiro a explorar ainda mais o mercado chinês 2021-12-07 18:30:18丨portuguese.xinhuanet.com Um barista apresenta café do Brasil aos consumidores chinese no evento de exibição do Dia Nacional do Café do Brasil em Shanghai, leste da China, em 3 de dezembro de 2021. (Fang Zhe/Xinhua) Shanghai, 7 dez (Xinhua) -- Embora a 4ª Exposição Internacional de Importação da China (CIIE) tenha terminado, o efeito de arrasto ainda não parou. O café brasileiro, por exemplo, está acelerando seu ritmo de exploração do mercado chinês através da plataforma de serviço de demonstração comercial "6 dias mais 365 dias" da CIIE. Era manhã no horário de Beijing e noite em Brasília, e as parcerias de cooperação e negociações das empresas brasileiras e compradores chineses permaneciam aquecidas durante o 4º Dia Nacional do Café do Brasil. Gilberto Fonseca Guimarães de Moura, cônsul-geral do Brasil em Shanghai, disse que as sessões matchmaking para encontrar parce...

Arábia Saudita suspende compra de carne de aves de 11 empresas do Brasil - créditos Globo Rural

  Arábia Saudita suspende compra de carne de aves de 11 empresas do Brasil Anúncio surpreendeu o governo brasileiro, que diz não ter recebido contato prévio nem conhecer o que motivou a decisão dos sauditas 2 min de leitura REDAÇÃO GLOBO RURAL 06 MAI 2021 - 18H44   ATUALIZADO EM  06 MAI 2021 - 19H20 WhatsApp Facebook Twitter Pinterest Linkedin Copiar Link + (Foto: Fabiano Accorsi/Ed. Globo) A Árabia Saudita suspendeu a compra de carne de  aves  de 11 empresas exportadoras do Brasil. A decisão veio a público com a publicação de uma lista de plantas habilitadas divulgada nesta quinta-feira (6/5) pela Saudi Food and Drug Authority (SFDA). O motivo não foi informado. No documento, ao qual a  Revista Globo Rural  teve acesso, constam que cinco das unidades suspensas são da Seara Alimentos, localizadas em Caxias do Sul (RS), Ipumirim (SC), Amparo (SP), Campo Mourão (PR) e Brasília (DF). Ainda há três da Vibra Agroindustrial, em Pato Branco (PR), Se...

Matéria da Imprensa Especializada: Atualização da safra de cana-de-açúcar 2022/23

Matéria da Imprensa Especializada:  Atualização da safra de cana-de-açúcar 2022/23  – 1ª quinzena de junho Moagem na 1ª quinzena de junho cresce 5,8% em relação ao mesmo período da safra 2021/2  --- créditos Nova Cana Moagem quinzenal:  A moagem de cana-de-açúcar na primeira quinzena de junho na região Centro-Sul atingiu 38,6 milhões de toneladas, o que representa um avanço de 5,76% em relação à quantidade registrada em igual período do ano passado, quando 36,50 milhões de toneladas foram processadas. Usinas em operação:  Até o dia 16 de junho, 250 unidades operaram frente a 254 unidades no mesmo período do ciclo 2021/22. Para a segunda quinzena de junho, outras quatro unidades devem iniciar a moagem no Centro-Sul. ATR quinzenal:  A qualidade da matéria-prima colhida nos primeiros 15 dias de junho, mensurada em quilogramas de ATR por tonelada de cana-de-açúcar processada, apresentou retração de 5,37% na comparação com o mesmo período do último ciclo agrícol...

Gestão de Pastagens: Planejamento e manejo da teoria à prática

   Gestão de Pastagens: Planejamento e manejo da teoria à prática. Aprenda a aplicar o método de melhoria contínua PDCA à gestão de pastagens, melhore a produção e qualidade nutricional do pasto. Saiba mais: https://go.hotmart.com/O5006091V -------------- *Catálogo de anúncios publicitários: https://www.dropbox.com/s/cbn4buvo1bo25sh/LFS%20Consultoria_An%C3%BAncios%20publicit%C3%A1rios.docx?dl=0 -------------- *Conheça a Rede LFS de Comunicação: https://www.dropbox.com/s/9jbzdbrrt55qhh2/Conhe%C3%A7a%20a%20Rede%20LFS%20de%20Comunica%C3%A7%C3%A3o.docx?dl=0 *Blog Agricultura & Pecuária: https://capitaofernandoagriculturaepecuaria.blogspot.com/ *Facebook - página: https://www.facebook.com/lfsrural *Grupo no Facebook: https://www.facebook.com/groups/530690934374947/ *Whatsapp - Grupo - https://chat.whatsapp.com/Hc4HWeCyLUB6oECSrqr7bQ *Seja um Patrocinador(a) da Rede LFS de Comunicação: https://www.asaas.com/c/903922181194 - - - - - - -

LFS ASSUNTOS RURAIS: Suínos: consulta pública discute procedimentos para certificação de granja reprodutora --- Istoé

Suínos: consulta pública discute procedimentos para certificação de granja reprodutora  O Ministério da Agricultura publicou hoje a Portaria nº 828, que submete à consulta pública, pelo prazo de 45 dias, novos procedimentos e requisitos a serem cumpridos para certificação de granjas de reprodutores suínos e para autorização de funcionamento de estabelecimento de alojamento temporário de suínos, no âmbito do Programa Nacional de Sanidade dos Suídeos. A nova norma revogará a Instrução Normativa nº 19/2002. Segundo a pasta, em nota, a proposta de revisão das diretrizes tem por objetivo adequar os procedimentos à atual situação epidemiológica nacional e internacional com relação às doenças de maior impacto na suinocultura. “Além disso, os requisitos para certificação foram reavaliados no intuito de estabelecer critérios mais bem definidos e atualizados, com base em evidências científicas e epidemiológicas, com vistas à padronização de procedimentos de certificação e objetividade na ver...

Como podar parreira de uva. Veja dicas técnicas!

  Como podar parreira de uva. Veja dicas técnicas! Podar a parreira de uva é uma técnica importante para garantir uma produção. É através desse sistema que permite estimular o crescimento da videira. Mas, não é uma tarefa tão simples e exige um certo conhecimento técnico para não comprometer toda a planta. Neste artigo estaremos mostrando  como  e  quando  podar a videira, além de outras informações. Boa leitura! Cultivo da parreira de uva Antes de tratar diretamente da poda da parreira, vamos falar um pouco sobre a uva. Originária da Ásia, o seu cultivo é considerado uma das atividades mais antigas entre os homens, devido aos seus deliciosos frutos para a produção de vinho. No Brasil, o plantio da uva teve início desde a época do descobrimento, em 1532, através dos portugueses. É uma  fruta  do tipo não-climatérico, ou seja, não amadurece após a colheita, devendo ser colhida no ponto ideal de maturação. Normalmente, as videiras são  pla...